terça-feira, 30 de setembro de 2014

Finais - Peter Kreeft

Conforme nos aproximamos do final da década e do milênio, o tempo se mostra naturalmente propício a reflexões sobre finais - Uma espécie de show do intervalo do jogo de futebol da história*.

Eu disse reflexões, não previsões. Somos sábios, creio eu, em deixar que os fundamentalistas monopolizem as previsões sobre o cenário do fim dos tempos. Já que o próprio Cristo não sabia a data de sua volta (Mt 24,36), tentar ofuscá-Lo é de um atrevimento inacreditável.

Eu nunca entendi a fascinação fundamentalista com os detalhes do Segundo Advento. Talvez isso nos atraia como uma prazerosa e efetiva distração de nossos deveres presentes. Isso daria algum terreno para o insulto marxista sobre religião ser o "ópio do povo". Na verdade a política - E não a religião - é o ópio do povo.

Mas se Ele pode vir a qualquer tempo, Ele pode vir esta década, este ano, esta noite. Qualquer noite poderia ser a última noite do mundo, e a década na qual estamos entrando agora pode muito bem ser a última década do mundo. Haveria uma certa adequação em tal final, se julgarmos pela numerologia bíblica. O cálculo literal (comprovadamente equivocado) do arcebispo Ussher, a partir das genealogias do Antigo Testamento, indicou 4004 a.c. como a data da criação do mundo, e a 4 a.c. como a data do Primeiro Advento, exatamente 4 mil anos depois. A escritura diz que mil anos são como um dia para Deus, e um dia como mil anos (Is 90,4). Então o sétimo milênio, que seria o sétimo dia de Deus, o eterno sabbath, deveria começar em 1996 d.c. Mas eu duvido que o mundo vá terminar em 1996, simplesmente porque muitas pessoas esperam isso, e uma coisa que sabemos sobre o apocalipse é que ele será inesperado, como um ladrão na noite (Mt 24,4).

O Santo Padre chamou os últimos anos do nosso milênio de "tempo do advento". A história parece estar virando uma grande esquina. Mas qual esquina?

Sem fingir estar escolhendo entre eles, eu vejo três prováveis futuros para o próximo milênio, SE houver um próximo milênio:

1 - Pode ser que nossa civilização esteja morrendo como a Roma do tempo de Agostinho. Se é o caso, não choremos sobre o leite derramado. Se não sabemos que nossa cidadania primária é a imortal cidade de Deus ao invés da condenada e moribunda cidade dos homens, é melhor que leiamos o grande clássico de Santo Agostinho: A Cidade de Deus (Ou, melhor e mais simples, as Escrituras).

2 - Ou pode ser que permaneçamos vivos como um cadáver espiritual, vagando pelo Admirável Mundo Novo, sem guerra mas também sem paixão - Sem pobreza ou fome, mas, em contrapartida, com terríveis pobreza e fome espirituais. Mas tal mundo, penso eu, seria instável e não poderia durar muito. Uma sociedade que pratica auto-indulgência a ponto de engolir suas próprias crianças, como Moloch, não pode durar muito mais que o "Reich de Mil Anos". Nesse mundo, pelo menos, os holocaustos nunca duram para sempre. Então essa segunda possibilidade para o futuro resulta na primeira possibilidade, e nossa reação a ela seria, igualmente: Já vai tarde!

3 - Ou talvez o século vindouro será o "século cristão". O jornal liberal com esse nome foi fundado em 1900 com esta previsão ingênua. A visão do Papa Leão XIII parece mais realista, ao dizer que Deus deu ao diabo um século e ele escolheu o vigésimo. Bom, talvez o pior já tenha passado. Talvez a viciada - auto-viciada - sociedade secular está prestes a atingir o fundo do poço e quicar de volta (Ou seja, se arrepender). Em um mundo onde já se tentou todo tipo de revolução e todo tipo de radicalismo, a ortodoxia é a única revolução possível no amanhã.

Nós não sabemos e nem precisamos saber qual cenário nos aguarda, já que nossos deveres e esperanças são idênticos em todos os três: Amar a Deus de todo nosso coração, alma, mente e força, e ao próximo como a nós mesmos. Porque, se esta sociedade está condenada, nossas almas não estão. Nenhuma sociedade dura para sempre, assim como nenhum corpo dura para sempre. Mas quando esta civilização, este milênio, este planeta e as próprias estrelas tiverem morrido há muito tempo, eu e você estaremos somente começando, sempre começando. Como bem coloca o hino "Amazing Grace:

"Quando lá estivermos por 10 mil anos,
Brilhantes como o sol,
Não teremos menos dias para louvar a Deus
Do que quando começamos"

As Escrituras dizem que uma maneira de se obter a Sabedoria é "numerar nossos dias", saber que nossos dias estão numerados (Salmos 90,12). O efeito nas nossas vidas dessa lembrança da morte - individual, civilizacional e universal - é o exato oposto da morbidez do escapismo. C.S. Lewis diz isso perfeitamente em seu ensaio, "O Peso da Glória":

"É uma coisa séria viver numa sociedade de possíveis deuses e deusas, lembrar que a a mais entediante e desinteressante pessoa com a qual você falar possa vir a se tornar uma criatura que, se você a visse agora, estaria fortemente tentado a adorá-la, ou uma criatura de tal horror e corrupção que se você pudesse encontrá-la agora, só poderia fazê-lo em um pesadelo. Durante todo o dia estamos, em algum grau, ajudando um ao outro a atingir um desses dois destinos... Você nunca falou com um mero mortal. Nações, culturas, artes, civilizações - Estas são mortais, e sua vida para nós é como a de um mosquito. Mas é com imortais que fazemos piadas, trabalhamos, nos casamos, esnobamos e exploramos - Horrores imortais ou esplendores perpétuos."



* Adaptado. O termo original utilizado é "seventh-inning stretch of a baseball game": "Esticadinha de sétimo tempo de um jogo de baseball".

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