Eu tive um sonho.
Nesse sonho, eu morri e me aproximei da cadeira do grande julgamento. Eu sabia que seria julgado pela Onisciência, então não poderia disputar o resultado do juízo.
A primeira coisa que me foi revelada pela Onisciência, através de um tipo instantâneo e inquestionável de telepatia, é que Deus sabia o que estava no minha mente inconsciente, assim como o que estava na minha mente consciente. Ele me conhecia melhor que eu conhecia a mim mesmo. Eu não estava surpreso por isso - Mas então Ele me revelou algo que esteve na minha mente inconsciente, e isso me surpreendeu - E quando vi aquilo, eu sabia que era a verdade. A Onisciência não mente.
O que eu vi eram as minhas expectativas inconscientes deste dia do julgamento. Eu esperava ir para o Céu, ser salvo, pois eu acreditei no Salvador. Mas eu também esperava ser nomeado para uma espécie de posição mediana no Céu: Nem alta entre os santos, nem uma baixa posição entre a escória que conseguiu se salvar de maneira surpreendente, por um triz. Antes eu não havia me dado conta que isso era minha expectativa inconsciente, mas quando a Onisciência a revelou a mim, eu reconheci que realmente era o que eu esperava.
Então veio o julgamento. A primeira parte não foi nenhuma surpresa: A entrada no Céu me seria garantida. Tudo bem. Mas a segunda parte foi um choque: Eu era a menor alma no Céu. EU era a escória. Eu entrei por por um triz de um triz.
Essa verdade me foi apresentada através de uma imagem. Eu não sabia se deveria interpretar aquela imagem literalmente ou não, mas ela me pareceu literalmente real. Eu vi um grande salão de banquetes, eu vi pequenos e grandes santos comendo em longas mesas, como uma celebração de um rei medieval. "Onde se encontra o meu lugar?", pensei. Então vi um cão sarnento, magrelo, cinza, feio, mordido por moscas embaixo da mesa, engolindo restos e ossos que lhe atiravam. O cão era constantemente chutado, de maneira brincalhona e impensada pelos comensais de espírito leve. Logo entendi por quê. Eu era o cão. Se eu aceitasse meu lugar apropriado no Céu, seria o de um cachorro.
A visão do banquete se esvaneceu e entendi que uma alternativa me era ofertada: Eu poderia, caso quisesse, ser um primeiro-ministro no Inferno ao invés de um cão no Céu. Eu me vi nos conselhos infernais, vestido em robes dourados, admirado por todos, o maior teólogo, profeta e guru do Inferno - Até mesmo o maior santo do Inferno! Todos os outros humanos lá se espelhavam em mim. Como primeiro-ministro, eu estaria em numa posição em que poderia me sentar nos altos (ou baixos*) conselhos do inferno e influenciar suas decisões. Eu poderia ser o espião celeste no Inferno. Parecia que eu poderia fazer mais ali no Inferno do que no Céu, onde eu somente engoliria restos e chutes dos meus superiores.
O Inferno, como o Céu, pareceu bem real, terreno, até físico. Eu não vi câmaras de tortura, fogo ou enxofre, só honras e influência. Eu seria bem tratado no Inferno e maltratado no Céu. Eu tinha que escolher entre ser o primeiro no Inferno ou o último no Céu.
Foi quando me lembrei do versículo de Salmos: "Eu prefiro ser um porteiro na casa de meu Deus do que habitar nas tendas da impiedade".
Eu também lembrei de um sermão de Santo Agostinho em "O Puro Amor de Deus", onde ele diz algo assim: Para testar seu amor puro a Deus, se você obedece o primeiro mandamento, de amá-Lo sobre todas as coisas, imagine Deus se aproximando de você e te oferecendo tudo no mundo, tudo o que você quer. Nada seria impossível a você, nada seria proibido. Nada seria pecado, nada seria punido. O que quer que você imaginasse, poderia ter. Mas há somente um porém - Conclui Deus - Você nunca veria minha face.
Santo Agostinho então pergunta: Você aceitaria esse acordo? Se não, olhe o que você fez. Desistiu do mundo inteiro e muito mais - Todos os mundos concebíveis - Só por Deus. Este é o amor puro de Deus.
Eu então soube que deveria escolher entre ser o último no Céu ao invés de ser o primeiro no Inferno, ou Terra, ou qualquer paraíso que não fosse o Céu. Eu sabia que ver sua face, mesmo que eu fosse um cão sarnento, seria infinitamente melhor que comandar todos os mundos e obter todos os outros bens.
Eu gritei a Deus: "Deixe-me ser um cão; Deixe que eu coma restos; MAS QUE SEJAM DA SUA MESA!" Ele então sorriu e abriu os portões do Céu para mim.
Eu esperava ser transformado em um cão e chutado. Mas o invés disso, homens e mulheres brilhantes se ajuntaram ao meu redor, congratulando-me. Então perguntei: "Eu não deveria ter me transformado num cachorro?" "Oh, sim", eles disse. "É o que você é. Agora. Como nós somos. Entenda, a todos nós foi dada a mesma escolha ofertada a você: Último no Céu ou primeiro no Inferno. E cada um de nós escolheu justamente o que você escolheu. Por isso estamos aqui. Todo mundo recebe o que escolhe. Cada um de nós aqui é o último, o menor, o mais humilde. O Salvador é o mais humilde de todos. E cada um que está no Inferno é o maior, o mais orgulhoso, o primeiro. Lá, todos são primeiros-ministros.
Eu acordei e a primeira coisa que me veio à cabeça é que "dog" é "God" escrito ao contrário**. Considerei isso uma pequena piada de Deus para nós. Cada um de nós é mais ou menos como Deus ao contrário, Deus espelhado, Deus sombreado e refletido, infinitamente finito. A ideia de ser um cão não me era tão chocante quanto a ideia de dividir a vida com Deus, já que a diferença entre eu mesmo e um cão não é nada comparada com a diferença entre eu e Deus!
Se formos humildes o suficiente para aceitar quem somos - Cães de Deus, animais de estimação de Deus - receberemos restos da mesa do próprio Deus, a vida do próprio Deus. Se insistirmos em nossa dignidade e exigir nossos direitos, temo que é exatamente o que receberemos. Todos no Inferno recebem justiça. Todos no Céu recebem ossos e restos de Deus, além de, talvez, um chute brincalhão de vez em quando. Mas eles podem suportar isso no Céu, porque lá eles sabem rir de si mesmos.
* Peter Kreeft costuma brincar com o status quo do inferno onde tudo é invertido em relação à valoração de atitudes: Bom é mau, alto é baixo, feio é belo, etc. As hostes infernais também se referem a Deus como "O Inimigo".
** Intraduzível trocadilho entre God (Deus) e dog (Cachorro).
Obs: Grifos do tradutor.
Obs: Grifos do tradutor.
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